Terça-feira, Junho 02, 2009

A Noruega nas palavras de Gonçalo Oliveira

Noruega, a Natureza e o Homem.

Glaciar, Fiordes, Preikestolen, Montanha, Bosque, Ovelhas. É assim que em meia-dúzia de palavras se define a Noruega. Mas esta experiência fotográfica proporcionou muito mais do que isso. Proporcionou um contacto muito próximo com um país cuja cultura difere, e de que maneira, da cultura tradicional latina a que estamos habituados. Uma sociedade que se rege pela confiança no próximo, em que cada indivíduo só está bem se todos os indivíduos à sua volta também estiverem. E todo o contacto que é possível ter com a Natureza, imponente, rebelde e bela.

A experiência norueguesa começa logo que se chega a Bergen. O tempo não ajudou, e para não variar, estava o céu coberto de nuvens.
A chegada a Aurland revelou a primeira surpresa. As cabanas à beira do Fiorde onde iríamos ficar alojados. Apesar de tarde, a noite nunca chega verdadeiramente. Há sempre alguma claridade no céu e bem cedo na madrugada, o dia torna-se cada vez mais claro. Tão claro que a adaptação ao sono nocturno se torna numa sesta à luz de dia, mesmo a meio da noite.

À hora de acordar, mesmo com nuvens, a vista magnífica dos fiordes que se avistam da varanda superam qualquer má disposição matinal. Estamos em plena natureza. O dia reserva-nos caminhadas pela região de Flam, no meio da floresta e de todo o meio rural. Muitas ovelhas e vacas, pelas estradas sinuosas das montanhas. Quedas de água quase em todas as frentes de montanha, e um verde vivo, típico de uma natureza onde abundam as fontes de água.
Regresso a casa, para uma refeição merecida, e cozinhada pelo nosso guia, Vítor, que com a devida dedicação preparou quase todas as refeições.

A maior aventura reservava-nos um dos mais espectaculares percursos da viagem: a subida ao Glaciar Jostedalsbreen. Após passarmos pelo maior túnel da Noruega, com a dimensão de 24 Km, chegamos ao destino bem cedo, onde as lojas ainda se encontram fechadas. Outro dos aspectos típicos da sociedade norueguesa, os horários das lojas. Após um segundo pequeno-almoço para acumular energia, eis que nos preparamos para a primeira aventura. Remar de caiaque durante cerca de 30 minutos. Uns caiaques bastante "tecnológicos", com compartimentos estanques para a roupa e leme a pedais. As explicações do Andy foram preciosas, e o seu ar sério quando alguém estava distraído manteve-nos atentos (Hey guys, listen!). Chegados à outra margem do lago, o glaciar. Uma das maiores forças da natureza ali bem perto. Mais escuro do que estaríamos à espera, fruto da poluição do Homem, mas mesmo assim imponente. Após a segunda parte das explicações, e da montagem do equipamento, presos por uma corda real, e outra virtual, da amizade que começava a florescer, lá nos fizemos ao caminho sobre o gelo. Os crampons tornam o caminhar mais seguro que qualquer outro calçado cobre qualquer piso. Até podemos marchar na vertical. Pelo caminho, entre o branco e o negro da superfície, e o belíssimo azul do interior, avista-se neve, e nos montes algumas avalanches. Após o almoço, bem no meio do gelo e no cimo de uma paisagem fabulosa, o regresso é feito de caiaque, até o ponto de partida.
O regresso às cabanas é feito calmamente, para um merecido descanso dos guerreiros fotoadrenalínicos.

Após tão grande aventura e um merecido sono, nada melhor que um passeio de barco pelos fiordes. No meio do braço de água que invade a terra, avista-se toda a beleza natural que os fiordes proporcionam, no meio da sua imensidão. Paredes de montanha altas, águas azuis, cascatas de água cristalina, e algumas casas de habitação no meio de toda esta esplendorosa paisagem.

Após o regresso, hora de partir para outra cidade, desta vez Stravanger, através de túneis, pontes, e ferries, onde o dia que se segue serve mais para descansar. Um breve passeio pela cidade, um jantar calmo nas pitorescas cabanas, um assunto para discutir em forma de tertúlia, e hora de ir dormir.

É chegada a hora de outra grande aventura da Noruega. A subida ao Preikestolen, ou rochedo do púlpito, devidamente traduzido para a língua de Camões. O caminho é acidentado, através de pedras e riachos, com mais ou menos inclinação, à beira de precipícios, acompanhados por centenas de outros visitantes. A chegada ao cimo é um sentimento de vitória, uma conquista de um patamar para o qual nunca tínhamos sentido estar preparados. A vista do cimo do rochedo, como que se sobrepondo acima dos fiordes é extenuante, e deixa qualquer um sem respiração. Do alto dos seus 600 metros avistam-se bem ao fundo os barcos que navegam o fiorde, parecendo apenas uns pequenos pontos brancos na imensidão de azul. Sentimo-nos bem perto do céu, como se de deuses nos tratássemos. A descida é feita com calma, pois não é menos perigosa que a subida, e entre brincadeiras e algumas paragens lá chegamos novamente à base.

O regresso a Bergen é feito pelos mesmos caminhos, entre fiordes, com algumas paisagens naturais, e mais uma vez os túneis e as pontes que cortam esses mesmos fiordes e braços de mar. Chegados a Bergen, e após a desilusão do alojamento, comparativamente aos anteriores, vamos conhecer um pouco melhor a cidade. A famosa zona de Bryggen, com os seus armazéns, e as tradicionais compras das lembranças para os que nos são próximos. Após o jantar na famosa Peppes Pizza, subimos ao Foyen, miradouro sobre a cidade para uma sessão de encantamento e romantismo com a iluminação da cidade.

O dia de regresso acorda triste, não pelo tempo mas pela saudade que se começa a sentir. Ainda há tempo para percorrermos o mercado do peixe de Bergen, onde nos são dadas a provar algumas das iguarias norueguesas: salmão marinado, fumado, selvagem, seco. Baleia temperada com azeite. Bacalhau fumado. Camarão, caranguejo, sapateira. Mais algumas compras para a degustação em Portugal, e está na hora de enfrentar a última aventura: o apanhar dos voos de regresso a Portugal.

Um obrigado a todos os fotoadrenalínicos que proporcionaram uma viagem que para sempre deixará saudades.

Gonçalo Oliveira

1 comentários:

Chico Lima disse...

Não sabia de sua veia jornalística, meu amigo. E de sua sensibilidade poética também!
Ótimo texto, claro e atraente para quem o lê.
Parabéns, amigo; voce me estendeu a mão nos momentos mais críticos daquele "monstro" chamado Preikestolen.
Um abraço saudoso,
Chico
BRASIL.